Você já venceu na vida, mas ainda não sabe

Aos 28 anos eu percebi que estava vivendo o meu sonho. Finalmente. Já fazia alguns anos que eu tinha alcançado meus sonhos, só que eu não percebi. Em um sábado sonolento eu estava no meu apartamento, onde morava com minha esposa e nossos dois filhos, eu estava autografando um de meus livros para enviar para uma leitora. Eu estava de pijama, que era, além de meu uniforme de sonhar, meu uniforme de trabalho. Eu lembro que quando eu trabalhava fora, em agências de publicidade ou em produtoras de vídeos, minha grande vontade era trabalhar em casa, desenvolvendo animações bem acabadas e bonitinhas para meus próprios clientes. Enquanto eu escrevia meu quinto ou sexto livro, eu tive vontade de virar um escritor. Bem sucedido ou não, eu queria ser um escritor preguiçoso, daqueles que ficam escrevendo de pijamas, com uma garrafa de uísque do lado. Mas muito antes de tudo isso, o maior de todos os meus sonhos era amar ser amado, e envelhecer ao lado da minha esposa, vendo de perto nossos filhos crescerem e viverem essa montanha russa de fases da vida.

Bem, dinheiro nunca foi uma prioridade na minha vida. Primeiro porque minha família sempre teve mais do que o suficiente, e depois porque eu nunca me importei mesmo. Mesmo quando minha condição financeira desmoronou, eu continuei satisfeito com meus grandes sonhos realizados: minha família, meus livros publicados e minha vida de freelancer.

Mas porque meu sonho virou um pesadelo e minha vida deu uma desmoronada? Bom, pela falta de grana, as pessoas que me cercavam não me consideravam bem sucedido. Me consideravam incapaz, preguiçoso. Eu não tinha voz e ninguém sentia segurança em mim. E aí eu comecei a me sentir cobrado, sufocado. Depois, comecei a me ver com os olhos que meus próximos me viam: incapaz, sossegado e irresponsável. E foi por isso que eu demorei pra perceber que tinha atingido graciosamente meus objetivos. E quando percebi, sentia culpa em saborear meu pijama e meu sucesso.

Quando meu casamento acabou, repentinamente, com um mero telefonema informando que findava esse sonho. Eu fui morar na casa da minha mãe contra a minha vontade. E aí, moralmente, eu me sentia ainda mais acabado. Perante a sociedade, o que é um homem de 29 anos de idade, andando de pijamas numa tarde de quarta feira na casa da mãe?

Fora o emocional, de viver sem acompanhar de perto, dia após dia, o crescimento de meus filhos, que era a coisa mais maravilhosa da minha vida. Mas depois de noites insones de lágrimas e desespero, um dia, eu dei uma bela olhada no espelho. Não com os olhos da sociedade, mas com os meus próprios olhos. Gostei do meu cabelo, do meu rosto, do meu pijama. Lembrei que eu ainda era um autor desconhecido, mas super elogioado pelos poucos leitores. Um freelancer talentoso e comprometido. E pensei, "porque eu não posso me olhar sempre com meus olhos e ver esse cara que eu sempre quis ser? Porque cargas d'água eu tenho sempre que me olhar com o olhar de uma sociedade retrógada que só considera conquista, o que é conquista financeira? Porque eu tenho que vestir uma carapuça que não é minha e me jultar com o martelo do outros?". Me calei perante essas perguntas e voltei a tomar remédios controlados descontroladamente para me sentir melhor comigo mesmo, mesmo sabendo que eu era bem sucedido e razoavelmente inteligente o suficiente para alcançar novos objetivos.

Morar na casa da minha mãe, não me incomodava. Não ter uma renda fixa e suficiente para comprar coisas que não me interessavam não me incomodava. Ficar em casa com roupas de casa por não ter onde ir com roupas de sair, me era conveniente. Então porque eu estava incomodado? Porque eu me via com os olhos da sociedade e me julgava e me culpava. Principalmente por ter sido excluído repentinamente da vida de alguém que amei por quase uma década. Isso me fez sentir descartável, insuficiente, desnecessário. Acabou com minha já desgastava auto estima.

Mas então, lendo alguns artigos na internet, eu percebi que não sou só eu que me culpo por não ter atingido o modelo de sucesso que a sociedade considera aceitável. E então saquei que muitas vezes a gente só pensa que não somos bons o suficiente porque as pessoas que nos rodeiam nos convencem disso. E geralmente, pessoas que fazem você sentir-se insuficiente, são pessoas que não chegaram onde queriam, e sem querer, acabam projetando em você essa sensação de incapacidade. E se você não tiver, especificamente dinheiro, então é fácil te convencer de que você não é uma pessoa capaz. Mas hoje eu me olho no espelho e percebo que eu conquistei tudo o que quis, só não conquistei o que as pessoas projetaram para mim.

Que minha experiência possa servir de alerta pra você. Se olhe no espelho e relate à si mesmo ou à se mesma o que você vê. Esqueça a questão financeira por um instante e diga pra si o que acha? Você terminou aquela faculdade que você escolheu cursar? Você trabalha com satisfação com o que escolheu fazer? Você está vivendo o relacionamento que escolheu pra si? Se sim, não deixe que a visão pobre da sociedade ou das pessoas que te cercam envenene a sua satisfação consigo. Não estou falando de lutar para alcançar vitórias que traçaram pra você, ou nem mesmo as conqistas que você tem na lista. Estou convidando-lhe a valorizar o que você já é! O que você já coneguiu. Porque assim como eu, na loucura do dia a dia você já pode ter conquistado muito, mas ainda não sabe. ;)

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