Auto Realização

Não sei se isso é algo mais característico da minha geração (a galera dos 30), ou se sempre existiu. Mas acho que hoje em dia, essa questão do embate entre submeter-se à uma vida indesejada ou abrir mão de compromissos desagastantes para alcançar a satisfação me parece muito em evidência. A geração passada, no geral, parecia ter não ter muitas opções. A linha da vida consistia em tirar boas notas na escola, dedicar-se na faculdade e saber que teria um emprego garantido e seguro no modelo CLT para o resto da vida. Isso para manter a família. Quase um autruísmo imposto, ou algo nesse sentido.

Hoje, com todos os adventos da tecnologia que trazem facilidades em diversas áreas o tempo inteiro e em uma velcidade vertiginosa, o mundo mudou e a forma de viver também. Porém, ainda há relutância da geração atual em usufruir das facilidades que os novos tempos nos trazem. Em parte, creio eu, pelo fato de sermos julgados pela geração passada, que não concebe a possibilidade de uma vida fácil e agradável. A regra é que a vida é difícil e é preciso se manter lutando e se desgastando o tempo inteiro. e ai de quem ouse levar uma vida despreocupada, esforçando-se arduamente para atingir seus objetivos incrompreensíveis pela geração passada.

A verdade é que não há, no campo profissional, certeza e estabilidade verdadeira. Quando trabalhei na quarta maior empresa de software do Brasil, nos 11 meses que estive por lá, vi funcionários de 3 anos de casa sendo despedidos. Vi funcionários de 10 anos de casa serem despedidos também. 25 anos de carteira assinada na empresa e, de repente, está despedido. Onde está a segurança no modelo CLT? Existe, e é maior que o empreendedorismo que tanto cresce atualmente. Mas é quase irrelevante. Não há certeza. A vida em geral está sempre em movimento e nunca se sabe o que ai acontecer daqui um minuto, uma hora ou dez anos. Então, não vale a pena se sacrificar pelas crianças, levar uma vida infeliz pela família ou para não desagradar a sociedade. Parece irresponsável e até egoísta de minha parte dizer algo assim. Mas digo por experiência própria. É claro que existe um equilíbrio aí. Se alguém depende de você, você deve sim abrir mão de seus sonhos e objetivos para que seus filhos, amigos, etc, possam ficar bem. Mas é preciso encontrar um equilíbrio.

A prova disso é a história da minha três décadas de existência. Meu pai completou seus estudos na escola. Trabalhou muito e passou muitas dificuldades. Passou fome e trabalhou em três empregos simultaneamente. Com o resultado de seu esforço graduou-se em direito e estudou muito. Passou em concursos. Inclusive passou em um concurso para ser juiz. Mas não quis exercer. Foi delegado de polícia na baixada do Rio de Janeiro e amava o que fazia. Finalmente conquistou sua autorealização. Mas isso não o livrou dos grandes desafios de se manter íntegro em um meio tão corrupto. Via seus colegas corruptos sendo promovidos enquanto ele, nunca foi promovido por merecimento, pois se recusava a fazer parte da chamada "banda podre". Se manteve sempre íntegro e esse era o seu desafio. Mas enfim conquistou sua aposentadoria e seu desacanso merecido. Depois de tanta luta para garantir o bem estar da família, alcançou um bom conforto financeiro e deu todas as oportunidades do mundo para cada um dos seus 2 filhos.

Em paralelo, minha mãe trabalhava mais de 10 horas por dia para me manter. Existem vários detalhes nessa história incompleta que não precisam aparecer agora. O fato é que ambos se esforçaram muito pelos seus filhos e hoje, nós, os filhos estamos completamente perdidos e ferrados emocionalmente. Sem rumo, sem dinheiro. Passando nossas próprias dificuldades. Deixei muita ponta solta nesses relatos, sei disso. Mas eles não são importantes. A essência do que estou transmitindo é que você pode abrir mão de seus sonhos e jogar sua vida fora trabalhando em algo que não te faz feliz pelos seus filhos, e nos final das contas, o futuro dos seus filhos são exclusivamente deles. Meus pais fizeram tudo por mim, e hoje eu vejo que quem tem que fazer algo por mim, sou eu mesmo. E o mesmo se aplica aos meus filhos. Como pai, eu tenho que orientar, mostrar para eles como alcançarem a auto realização, a felicidade. E como ensinar alguém a ser livre, feliz e realizado, agindo da forma contrária?

É preciso ensinar com exemplo. Se eu quero que meus filhos, amigos, etc, sejam felizem e realizados, eu tenho que, em primeiro lugar, ser feliz e realizado. Senão, eu estaria sendo hipócrita e, acima de tudo, burro.

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